Escola da Via Campesina Educa Onde Morou o Barão dos Campos Gerais

quarta-feira, 5 de agosto de 2009 Martins M. - Pulsar  

A casa do “senhor dos escravos”
e os estudantes da cor da terra

Ainda faz parte da casa construída nas proximidades de 1850, ou seja, 160 anos atrás, um buraco sombrio, longe da luz do sol, escuro, mesmo em pleno dia. Naquela época era o lugar onde os escravos se recolhiam para descansar. Um estudante da Escola Latino-americana de Agroecologia (ELAA), criada por movimentos sociais da América Latina, vinculados à Via Campesina Latino-americana, me diz: “aqui esteve de visita o imperador dom Pedro II”. Toquei o travessão de madeira curvada pelo passo do tempo e peso das pedras que serviram de materiais para a construção da casa colonial. Porém, é impossível abstrair-se de pensar o que significou aquele espaço, naquele tempo, como peso perene na historia do Brasil, e do hoje Estado de Paraná. Fiquei parado, absorto, na porta de entrada onde centos de pessoas se curvavam pelo regime de escravidão para passar a seu “quarto” para “descansar”. Perto daí, na frente da casa de quem foi o “barão dos campos gerais”, coronel David dos Santos Pacheco, uma árvore se ergue num círculo de pedra. O estudante me conta: “esta arvore foi plantada depois da libertação dos escravos; antes em seu lugar tinha um tronco que servia para amarrar e surrar os escravos”. O tronco já não está. Porém, os objetos que ficaram em pé como mudos testemunhos da vida e suas relações durante o reinado dos coronéis na região sobram no ar e no chão.
Segundo os escritos de David Carneiro, em sua “Galeria de Ontem”, Santos Pacheco hospedou dom Pedro II em 1880 “na sua própria casa (...) e para comemorar e festejar dignamente essa passagem alforriou os escravos que possuía em suas extensas fazendas, que eram duas no Paraná, e uma em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul”.

Entre outros vestígios da época e em meio de uma espessa neblina, participo com os alunos da Escola de uma de suas atividades marcadas durante o dia de estudo e busca de conhecimento: A formação em circulo na frente da antiga casa do Barão para saudar a bandeira do Brasil cantando o hino nacional e cumprimentar as bandeiras do MST e da Via Campesina, cantando o hino dos trabalhadores do mundo, “A Internacional”. O ato de liberdade e rebeldia contrasta com a historia e a paisagem com ar de colonialismo português. Vozes dos estudantes retumbam e no ecoar levam a memória até o encontro ainda de vozes e presenças mais antigas como as do século XVIII, quando em 1740 o governo português coloca no sitio a família Costa e surgem as fazendas Bom Jardim e Serrinha. Foi o início de um processo que levaria aos descendentes até “o senhor dos escravos” David Santos Pacheco, nascido na fazenda Bom Jardim 28 de junho de 1810. Segundo o historiador José Sabóia Cortês, em seu livro “Paraná de Outros Tempos”, o pai do Barão dos Campos Gerais, Manoel dos Santos Pacheco, deixou para seu filho “esmerada educação” e um mandado de ferro: “não deixar as tradições familiares como fazendeiros e negociantes de gado”. A mesma fonte fala que o Barão desde cedo “se fez tropeiro”. Mais tarde se juntou ao Barão de Antonina “seu padrinho de batismo e seu chefe orientador nos assuntos políticos”. David Santos Pacheco foi Barão por decreto de 31 de agosto de 1880, porém, segundo José Sabóia Côrtes, aquele ato administrativo só oficializou “a nobreza inata do seu grande coração e das suas virtudes pessoais”.

Quando cheguei à Escola Latino-americana de Agroecologia, criada dentro do Assentamento Contestado do MST, outrora Fazenda Bom Jardim, depois Fazenda Santa Amélia, e desde finais do século XX sede da INCEPA, Indústria Cerâmica Paraná S.A. não tinha noção do que ia encontrar, alem com certeza, às famílias que lutaram e seguem lutando pela reforma agrária no Brasil. Eu levei um documentário chamado “semente de sonhos” para compartilhar, com os educando da escola, um moderno tipo de genocídio praticado pelos fazendeiros e transnacionais do agronegócio e do neocolonialismo de Mato Grosso do Sul contra o Povo Guarani. Encontrei-me com outra semente que vem germinando com força num espaço onde reinou 200 anos atrás o colonialismo escravista português e cujos vestígios são hoje aproveitados para tempos de luta, esperança e liberdade.
A partir de 1985 foi à vez da transnacional INCEPA que comprou dos descendentes do Barão dos Campos Gerais a fazenda já com o nome de Santa Amélia. Segundo Márcia Scholz de Andrade em sua pesquisa “A Lapa e o tropeirismo” a indústria de produção de cerâmicas de luxo adaptou a casa sede da fazenda “para receber um museu da memória da empresa e do tropeirismo”.

Soubemos e resgatamos aqui também que, entre suas proezas, o Barão, segundo conta Sabóia Cortês, “quando surgiu à guerra do Paraguai, encarregou-se de dar uniformes e treinamento a 150 voluntários da Pátria que ele próprio trouxe até Curitiba”. É curioso que, sobre fatos como este, no livro do historiador Julio José Chiavenatto, “Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai” se fala justamente que muitos soldados brasileiros não eram precisamente “voluntários da Pátria” e sim negros “oprimidos no trabalho escravo” empurrados para a guerra.

Escola da liberdade

É interessante o fato de que uma empresa transnacional como a INCEPA já em pleno século XX não só se esmero em resgatar a historia de façanha dos “tropeiros” como o do Barão dos Campos Gerais, introduzindo reformas na casa colonial para tê-lo como museu, mas tapando com o pano da vergonha o que foi o regime escravista na fazenda. E sim, de alguma forma, reproduz novamente relações trabalhistas atentatórios contra os direitos humanos. Por isso, quando em 1995 o presidente da república Fernando Henrique Cardoso, aceita a proposta do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de que “fossem disponibilizadas para fins da reforma agrária as terras das empresas que tivessem dívidas com a Previdência Social“, a INCEPA, não esteve ausente. O INCRA então desapropriou a fazenda Santa Amélia e entrega as terras ás famílias que a reivindicavam desde fazia muito tempo. Nasce assim em dezembro de 1999 o Assentamento Contestado do MST, sede da Escola Latino-americana de Agroecologia, no município de Lapa, Estado de Paraná, onde moram, trabalham e estudam 108 famílias camponesas.

Em minha recorrida pelas trilhas e misturas de atmosferas do antanho escravismo e o presente de dignidade onipresentes na hoje terra libertada de Contestado, um educando de agroecologia, filho de assentado, me mostra umas folhas penduradas na rama de uma árvore e diz com ar de orgulho: “Aqui estamos fazendo umas pesquisas que vão nos ajudar a melhorar espécies para reflorestamento nas áreas devastadas pelo agronegócio”. A Escola Latino-americana de Agroecologia (ELAA) surge em 2005 através de um protocolo de intenções entre o Governo Bolivariano, de Venezuela, o Governo do Estado de Paraná, a Universidade Federal do Paraná, Ministério de Desenvolvimento Agrário do Brasil, os dirigentes da Via Campesina Internacional e o MST. Tem como objetivo “formar jovens camponesas e camponeses técnicos em agroecologia para atuarem junto aos camponeses e camponesas de comunidades, assentamentos e acampamentos do Brasil e outros países da América Latina”.

Segundo dados oferecidos pela coordenação da Escola o Assentamento Contestado tem 3.190 hectares, dos quais 1.240 hectares é área de reserva legal; 1020 hectares é usado pelas famílias para fins agropecuários; 733 para reflorestamento com eucalipto e pinus com gestão coletiva das 108 famílias; sendo 167 hectares imprópria à produção. No assentamento “as famílias estabeleceram avançado acordo de preservação ambiental, fixando regras no regimento interno do assentamento, incluindo a proibição de caça, o que tem favorecido a reprodução de fauna silvestre, que é numerosa, uma vez que encontra amplo espaço seguro de sobrevivência com farta alimentação natural”.

Com o decorrer dos tempos e graças à luta e convicção de camponeses e camponesas tanto o Assentamento Contestado como a Escola Latino-americana de Agroecologia transformaram, definitivamente, aquele reduto de exploração e acumulação de riqueza de séculos, num cantinho latino-americano da produção, da partilha, do conhecimento, da liberdade, alegria e de respeito para todas as manifestações de vida dentro daquele pedaço de chão.

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